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domingo, janeiro 08, 2006 

As divas que cantaram o Brasil

Foi minha primeira matéria publicada na Folha. Não está entre minhas favoritas, mas é histórica :)
Pode ler quantos livros de história quiser, você nunca vai conseguir sentir como foi a ditadura militar até escutar os discos de Elza Soares. O Brasil não é o país das cantoras apenas pelo grande número de artistas que nascem e ganham destaque todos os dias, mas porque elas sempre tiveram um papel fundamental na nossa memória coletiva. Elas cantaram a história do nosso país e, especialmente para o dia da Mulher, a Folha de Pernambuco relembra nossas divas que brilharam aqui e lá fora.

Tem quem estranhe e até ache ruim a fama exótica que o carnaval recebe pelos turistas. Mas não fazem idéia de como a imagem do Brasil era muito mais pobre até que Carmen Miranda deixasse o medo de lado e, em 1939, subisse no navio Uruguai com destino aos Estados Unidos. Por lá, o som tupiniquim ainda tinha a cara de Pixinguinha e os Batutas. Tocava com modéstia nos centros de alta cultura, até que de repente Carmen vira um estouro na Broadway. Com uma cesta enorme de frutas na cabeça, cores gritantes, cantando aos quatro cantos que era carnaval.

Nossa primeira diva não poupou brilho e virou logo um ícone internacional. No cinema, um dos seus últimos filmes traduzia a nova imagem do Brasil. Em uma cena super surreal de “Romance Carioca”, a mocinha apressa a mãe dizendo “vamos, que o carnaval começa daqui a pouco” e, não bastasse a festa ter hora marcada para chegar nas ruas, da sacada elas se divertem vendo bonecos de elefantes no lugar dos carros alegóricos. As músicas “Mamãe Eu Quero”, O que é que a Baiana Tem?” e Chic Chica Bom” podem não ser obras trabalhadas, mas foram os primeiros hits femininos do País. Depois dela, a adoração feminina passou a ir muito além da voz no rádio.

Com o estouro cultural que foi na época - principalmente os festivais da MPB e o surgimento da Bossa Nova - as divas vieram de monte. Elza Soares, Elis Regina e Nara Leão ditaram absolutamente tudo na época de maneira bem natural. Bastaram aparecer na televisão para que o Brasil soubesse o que vestir e dizer. Cada uma foi reflexo das várias situações da mulher brasileira na época. Elza, filha de lavadeira e operário, foi mãe aos 12 anos e viúva aos 18. Dois anos mais tarde fez a estréia nos palcos, com a mesma idade que Elis Regina ganhou o festival Fino da Bossa.

O choque entre as duas mostrava bem a situação entre a classe média e baixa da época. Elis vinha de situação melhor e conseguiu muito mais estratégia para sua entrada na música. Foi a primeira artista brasileira a registrar a voz como instrumento na Ordem dos Músicos e anunciou no palco a estréia de ninguém menos que Chico Buarque. Elas abriram o tapete vermelho para as divas do país e, ainda hoje, são parâmetro em qualidade de música, comportamento e fama.

O Recife não ficou de fora dessa época. Por aqui, os programas de auditório nas rádios também lançaram nossas primeiras cantoras. Nomes como o de Nádia Maria foram responsáveis por lotar os estúdios de pessoas que faziam de tudo para ficar um pouco mais perto da diva que, ainda hoje, tem passagem pelos palcos da cidade.

Publicado originalmente no dia 07 de março de 2005

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