Entrevista: Martinho da Vila
Até hoje fico impressionado e me repetindo q tomei uma cerveja com ele.Visto de longe, na tela de um Faustão, Martinho da Vila nem parece que é gente como a gente. Com 68 anos de idade e 38 de carreira, escreveu sambas que já atravessam gerações. Alguns refrães, como “vai vadiar”, a gente já pode correr o risco de dizer que, hoje, já se nasce no Brasil sabendo. Mesmo assim, o repertório dele não esgota. Pesquisador, mostra agora a segunda etapa de sua busca por novas poesias em “Brasilatinidade”.
Na varanda da piscina do hotel, Martinho esbanja uma simplicidade que afasta qualquer mito criado na imagem dele. De sandálias e camiseta, ele rende na cerveja, mas não economiza no cigarros - três cigarros durante uma conversa de 40 minutos. Tranquilo, ele dá a receita do novo disco, “fiquei pensando nas línguas, achei legal usar essa temática, de misturar a cultura latina”.
Nas 15 faixas, ele pega poesias da Itália, Espanha e até Romênia, traduz e dá contexto e som nacional. “Meu barato era fazer uma mistura, sem descaracterizar”, explica. Para ajudar a imprimir os arranjos de uma identidade externa no samba, Martinho contou com a presença de Robertinho do Recife. “De cara não achei que seria conveniente, até porque conhecia apenas o trabalho dele com guitarra. Mas descobri que ele tem um talento fora de série”.
Não demora muito para descobrir a genialidade e intimidade que Martinho da Vila tem com a música. “Gosto de pegar o mote da música quando estou batendo papo. Outro dia, um amigo pediu um suco de maracujá num bar e, na hora, comecei a pensar numa letra”, recorda fazendo referência a faixa nove do disco.
Para as músicas que traduzem poemas de fora, Martinho contou com a participação de artistas do país de origem de cada uma delas, todos cantando no idioma local. A exceção é “Dentre Centenas de Mastros”, de influência romena. A canção também é a única que é mais distante sonoramente do samba. “Foi um trabalho enorme para encontrar uma canção romena que combinasse com o projeto”, lembra o sambista, sempre empolgado com o resultado de suas pesquisas.
Mas longe de ser entusiasta, Martinho conhece bem os riscos de lançar um trabalho erudito. “Existe uma resistência quando eles acham que é requintado demais, algumas rádios até se recusam a tocar”, reflete. A preocupação veio do trabalho anterior, o “Lusofonia”. Mesmo com influência da chula de Portugal, um ritmo tão próximo do chote, a recepção não foi tão boa quanto esperada.
Para lançar “Brasilatinidade”, Martinho da Vila se prepara agora para lançar o DVD do disco. “Fizemos várias imagens nos países que inspiraram as músicas, junto com os artistas convidados”, explica. Fora a apresentação em São Paulo, para a gravação do material, a primeira turnê foi marcada na Europa e ainda está sem datas para começar a rodar o Brasil.
Publicada originalmente no dia 06 de abril de 2005